Especial Oscar - Oscar 2017 - Entre gafes e surpresas, Moonlight surpreende e desbanca La La Land
Dizer que a 89ª edição do Oscar foi dentro do esperado seria um equívoco - a se destacar um dos maiores micos já presenciados em uma cerimônia da premiação mais importante do cinema mundial, depois da queda de Jennifer Lawrence, caindo de maduro na escada...
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"Não é uma piada, 'Moonlight' venceu Melhor Filme" - ok, não foi uma piada, mas foi uma gafe histórica, até porque "La La Land" já havia sido anunciado como vencedor. Um grande mico, esperamos que em 2018 não se repita esta pataquada. Aliás, ano passado foi impagável a reação de Morgan Freeman ao abrir o envelope e ler "Spotlight" - é de momentos assim que Oscar precisa, mas apenas para criar memes inesquecíveis.
Agora vamos ao que realmente interessa, analisando, em tópicos, como foi a experiência geral do Oscar 2017:
1. Moonlight - O Aclamado Vencedor Inesperado
Dizer que "Moonlight" era realmente o grande favorito, bom, para mim foi uma grande surpresa. Quando assisti ao filme, antes da premiação, ele não ficou sequer entre os meus favoritos do "Top 5", havia superado apenas "Lion", na verdade.
Mas, longe de considera-lo um filme ruim, apenas não vi todo esse brilho, essa grandiosidade que o levou ao topo da lista dos críticos, fato que se iguala ao choque que foi ver "Spotlight" levando a estatueta no ano passado. Só que entre o drama trifásico do rapaz negro, em busca de afirmações e respostas em sua jornada de vida, e o drama jornalísitico envolvendo a investigação ferrenha das denúncias de pedofilia na Igreja, menos traumática foi a vanglória do rapaz e sua trajetória sofrida.
Até porque os Estados Unidos andam muito preocupados com as polêmicas e o medo de deixar a opinião pública insatisfeita. Então, vamos concordar que "Moonlight" veio na hora certa, até porque a classe de atores negros andava bem insatisfeita com o pouco caso ás produções do gênero, coisa que acaba ofuscando tanto talento e tanta história, rica em conteúdo e grandes estrelas.
Enfim, se alguns pensavam que "La La Land" realmente seria o grande vencedor, como foi mesmo, por alguns poucos minutos, acabou tendo que digerir uma "novidade" e aceitar um novo status para uma produção que talvez nem estivesse pronta para tal feito histórico. Mas o brilho do luar acabou sendo ofuscado pelo erro da entrega de envelopes, e isso acaba contrastando, erroneamente, com o que realmente deveria ser lembrado e eternizado nesta cerimônia.
Sobre o filme: Chiron (Alex Hibbert / Ashton Sanders / Trevante Rhodes) terá sua jornada de vida, entre a infância e fase recém-adulta, dividida em três atos: no primeiro, ainda criança, e apelidado de "Little", ele conhece Juan (o vencedor na categoria Ator Coadjuvante, Mahershala Ali), um narcotraficante cubano, que acolhe o garoto, que tem que se esconder de outros garotos por seu jeito retraído e de raras palavras. Além de seus próprios dramas pessoais, Chiron convive com a mãe, Paula (Naomie Harris, indicada como Atriz Coadjuvante), uma mulher de difícil temperamento, que não sabe lidar com as emoções do filho, nem sequer conviver consigo mesma - ainda sofre com o vício das drogas, um ponto de conflito com Juan, de certa forma. Little ainda conhece Teresa (a polivalente Janelle Monáe), que passa a ter um carinho pelo garoto, o que contrasta totalmente com o comportamento antagônico de sua mãe. Aliás, um ponto forte deste filme é a questão da homossexualidade, tratada de forma sutil, porém levando em conta o quão difícil pode ser o momento de se aceitar e assumir esta realidade. Paula acaba até chamando o filho de "bicha", termo que, até então, aquela criança desconhecia. Juan acaba sendo um porto-seguro, ensinando Chiron a nadar e o aconselhando a seguir seu próprio caminho. Neste momento, temos todo o pano de fundo para o desenrolar dos próximos dois atos - na adolescência, Chiron vai entrar em um embate emocional e denso com seu amigo mais próximo, Kevin (Jharrel Jerome), quando um sentimento novo e desafiador irá desabrochar. No terceiro ato, já em vida adulta, Chiron passa a ser melhor conhecido como "Black" - o rapaz consegue perdoar sua mãe, mas não parece ter ainda encontrado seu caminho definitivo. E, o reencontro com Kevin, depois de anos, pode trazer à tona sentimentos que ainda necessitam de muitos cuidados e auto-afirmações.
E é neste cenário de dramas e transformações que 'Moonlight" saiu do Oscar com 3 estatuetas de 8 indicações, desbancando "La La Land" que entrou ali na pompa de 14 indicações (levando 6 e se tornando o maior vencedor da edição), mas derrapando na hora de vencer a categoria principal. Além de melhor filme, "Moonlight" levou Melhor Ator Coadjuvante (achei um tanto inesperado, minha torcida era por Jeff Bridges, impecável em "À Qualquer Custo") e Melhor Roteiro Adaptado.
2. O Musical moderno teve sua noite de Miss Colômbia...

Se voltarmos no tempo, vamos encontrar diversas produções no mesmo estilo de "La La Land", grandes musicais com uma história a se contar, de pano de fundo. Enaltecido em trailers de cinema, preleções e até mesmo pelo número grandioso de indicações ao Oscar - foram 14, não é para qualquer um! - o musical moderno acabou sendo subestimado na própria soberba a que fora designado.
Ao mesmo tempo em que a produção seja correta, colorida, repleta de canções doces e marcantes, coreografias e cenários, ela acaba derrapando na falta de ambição, aquele "algo mais" que muita gente insistiu em destacar. Mas, na minha opinião, que vi o filme no cinema, não faltou nada. Apenas tentei juntar todos os pontos e justificar a ausência da sétima estatueta, mas ainda acho que, para quem já enalteceu "Chicago", "La La Land" é um tanto mais "honesto" e grandioso.
Só que, se a hora é de defender o cenário político e social, combater as mazelas que assolam a sétima arte, que tal deixar "La La Land" colecionar seus méritos, como foi com "Gravidade" e "Mad Max", e sair dali com a cabeça erguida, deixando orgulhosos àqueles que realmente enxergaram o filme como um belo e inesquecível musical, de simpáticas e afinadas atuações.
Méritos para Emma Stone, que leva o prêmio de Melhor Atriz, e vem de uma recente participação no premiado "Birdman", e o diretor Damien Chazelle que, após ver "Whiplash" tendo já seus méritos anteriores, agora tem seu merecido reconhecimento levando a estatueta de Melhor Diretor.
3. As impressões dos outros 7 indicados, ofuscados, porém com seus méritos.
Antes do filme de Chiron ter sua glória, talvez não imaginássemos que o grande embate da noite seria "La La Land" x "Moonlight". Neste momento, parece que os outros sete indicados à Melhor Filme passaram a ser meros coadjuvantes, mesmo todos nós sabendo que nesta turma temos muita coisa boa e relevante, e que ainda vão "sofrer", um pouco, neste inchaço de concorrentes em uma única categoria - desnecessário, só acho.
Alguém aí se lembrou de "Gravidade", ou qualquer outro filme que fuja dos padrões do Oscar? Bom, "A Chegada" já conquista, com grande mérito, o seu status de "indicado ao Oscar de Melhor Filme", mesmo sabendo que não era o grande candidato a ter seu nome no envelope principal. A ficção se rende à emoção e sensibilidade de uma tradutora, vivida pela brilhante Amy Adams (ao invés de tentar novamente com Meryl Streep, que nem precisava desta indicação, a Academia poderia ter dado uma chance á atriz). Enquanto precisa decifrar estranhas mensagens de alienígenas, que estão em contato íntimo, pessoal e meio "silencioso" com os terráqueos, a moça sofre com as duras e amargas lembranças de uma tragédia pessoal, envolvendo a perda de sua filha. É neste embate entre a razão e a emoção que o filme acerta em cheio em seu enredo, brincando, de certa forma, com a cabeça do espectador, que deve evitar julgar o real propósito da produção, e se deixar envolver pelos desafios pessoais da Doutora Louise Banks.
Para quem curte aqueles filmes estilo "canal TNT", este filme é a cara destes clássicos que permeiam os canais de TV a cabo. Na verdade, este filme estilo velho-oeste, mas com roupagem moderna, se sustenta na bela atuação do veterano Jeff Bridges, que manda ver na perseguição contundente aos meliantes vividos por Chris Pine (cara de bom moço, disfarça bem até) e o endiabrado Ben Foster (o mau caráter enlouquecido). Em um clima tenso, o filme prende você até descobrir no que vai dar esta perseguição, literalmente, "à qualquer custo". Sem muito confete, o filme acabou perdendo terreno entre os bam-bam-bans da lista.
Diferentemente de "À Qualquer Custo", "Até o Último Homem" teve suas pretensões maiores, em uma história real, cruel e de obstinação de Desmond Doss, um grande exemplo de honra e respeito ao próximo. Dirigido por Mel Gibson, que costuma acertar em suas produções, o filme traz uma atuação correta de Andrew Garfield, que se entrega ao papel e nos faz admirar o soldado que passou por cima de muitos protocolos, até atingir seus objetivos. Uma pena que filmes deste gênero, que eram a menina dos olhos de décadas passadas, acabem passando meio desapercebidos nos tempos atuais.
Certo, pessoal - se a intenção é premiar e reconhecer o talento dos atores negros, o que aconteceu com o destaque às atuações tão seguras e brilhantes das atrizes em "Estrelas Além do Tempo"? Taraji P. Henson, Octavia Spencer e Janelle Monáe (de novo!) mostram com graça e propriedades a trajetória de mulheres que tiveram que superar preconceitos e barreiras para mostrarem seus talentos e habilidades. Enquanto "Estrelas" foi a fundo no contexto histórico e deu a cara de três mulheres a tapa, "Moonlight" já soa menos "denso" neste âmbito mais amplo e complexo. Mas, se não teve o reconhecimento devido na lista inchada do Oscar, vale a pena se encantar com estas mulheres batalhadoras, em atuações que merecem ficar pra sempre na memória.
Baseado em uma peça de teatro, o filme se sustenta em diálogos carregados de emoção e certo sofrimento, em lembranças um tanto dolorosas de um casal que está longe de uma relação ideal. O que mais me incomodou em "Um Limite entre Nós" foi o excesso de Denzel Washington em cena, que acaba soando repetitivo algumas vezes, e seus discursos parecem não ter mais fim. Enquanto isso, Viola Davis precisa de um pouco menos para mostrar o seu enorme talento, em uma atuação brilhante, como sempre. Longe de ser um filme mediano, ele acaba não tendo aquele "plus" que os filmes em maior destaque acabam tendo, até porque a sua produção é mais simples e longe dos exageros hollywoodianos.
Parece que o rapazinho de "Quem Quer ser um Milionário" cresceu, e aqui aparece como Saroo, um rapaz em busca de suas verdadeiras origens. Na primeira fase, onde Saroo ainda é uma criança inocente e muito sofrida, o lado emotivo do filme aflora, e faz o espectador se compadecer do sofrimento alheio. Mas, quando chega a hora de mostrar a jornada de Saroo para reencontrar sua família na Ìndia, o filme perde preciosos minutos arrastando a história, onde poderia tentar mais concisão. Além disso, a atuação de Rooney Mara é esquecível, tanto que quem foi lembrada no Oscar foi justamente Nicole Kidman - mas, com poucas chances, no fim das contas. No geral, "Lion" é um filme que pode encantar, apesar de pecar pelo excesso.
Um filme para ser marcante e brilhante não precisa de muito - apenas precisa de uma boa história e um elenco afinado, e pronto. Isso é o que acontece com "Manchester à Beira-Mar", uma bela história que mescla momentos de drama e conflitos internos, na busca de um homem (Lee Chandler, vivido pelo premiado Casey Affleck) confrontando as razões que o fizeram deixar para trás sua família e sua cidade natal. Lee é um homem de personalidade difícil, e ao retornar à Manchester as coisas ficarão ainda mais complicadas, com a morte do irmão, o testamento, e o tormento causado pelos fantasmas do passado. Ainda conta com Michelle Williams e Lucas Hedges no elenco.


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